Cuidados pré-analíticos no diagnóstico molecular da Leishmaniose Visceral Canina

Na rotina clínica veterinária, o diagnóstico da Leishmaniose Visceral Canina (LVC) é um dos maiores desafios. Por ser uma doença sistêmica de evolução crônica e manifestações clínicas extremamente variadas, que vão desde animais completamente assintomáticos até quadros dermatológicos e renais severos, o suporte laboratorial é indispensável (1).

A PCR em Tempo Real (qPCR) consolidou-se como ferramenta valiosa devido à sua alta especificidade e capacidade de quantificar a carga parasitária. No entanto, o sucesso desse teste não depende apenas da tecnologia do laboratório. Ele começa muito antes, na escolha e coleta do espécimen correto (1).

Se a Leishmania infantum se espalha pelo organismo, qual é a melhor amostra para enviar ao laboratório? Vamos analisar o que a ciência e a prática clínica nos mostram sobre as principais opções.


Sangue total: conveniência, com limitações

O sangue periférico é amostra de fácil obtenção e amplamente utilizada na rotina para o diagnóstico molecular da LVC. Entretanto, a Leishmania infantum é parasito intracelular obrigatório que habita principalmente os macrófagos em tecidos linfoides e órgãos profundos. Soma-se ao fato da parasitemia ser intermitente, especialmente em cães assintomáticos ou em fases iniciais da infecção, o fato de a carga parasitária circulante poder ser bastante baixa, levando a falsos-negativos. Os resultados negativos devem ser interpretados em conjunto com os achados clínicos e epidemiológicos. Quando necessário, a avaliação pode ser complementada com outras amostras para aumentar a sensibilidade diagnóstica (2).


Tecidos profundos (linfonodo e medula óssea): melhor sensibilidade, mas invasivo

Para alcançar a máxima precisão diagnóstica na LVC, recomendam-se tecidos ricos em células do sistema fagocítico mononuclear. O aspirado de medula óssea é tradicionalmente considerado o padrão-ouro devido à sua carga parasitária estável, sendo indicado para monitoramento e casos complexos, embora sua coleta seja invasiva e exija sedação ou anestesia. Como alternativa mais prática e menos traumática, o aspirado de linfonodo (poplíteo ou pré-escapular) apresenta eficácia extrema, com estudos registrando taxas de detecção por PCR de até 100% em animais infectados. Clinicamente, a punção aspirativa por agulha fina (PAAF) do linfonodo poplíteo é uma boa opção por ser um procedimento rápido, que geralmente dispensa anestesia geral, oferecendo um equilíbrio ideal entre sensibilidade diagnóstica e viabilidade na rotina veterinária (3; 4).


Raspado de orelha: facilidade de acesso e boa correlação com a medula

O raspado da borda da orelha (pavilhão auricular) destaca-se como uma técnica prática e de baixa invasividade para o diagnóstico molecular da LVC, sendo uma alternativa robusta aos métodos tradicionais. O procedimento consiste em um raspado cutâneo profundo realizado com lâmina de bisturi, cuja eficácia na detecção do DNA do parasito se mantém mesmo em áreas de pele íntegra, sem a necessidade de feridas ou úlceras aparentes para que o teste seja sensível. Segundo o estudo de Garay et al. (2022), esta técnica apresenta uma sensibilidade de 85%, valor estatisticamente similar ao obtido no aspirado de medula óssea no mesmo grupo de animais. Clinicamente, o raspado de orelha oferece a vantagem de uma coleta rápida e de fácil acesso, reduzindo o desconforto do paciente e eliminando a necessidade de sedação frequentemente exigida pela punção medular. Além disso, a carga parasitária estável nesse local torna-o um excelente indicador da infecção sistêmica, inclusive em animais que não manifestam sinais clínicos cutâneos


Suabe de conjuntiva: boa sensibilidade e bem-estar animal

A validação do suabe de conjuntiva ocular como amostra para o diagnóstico molecular da LVC representa avanço significativo, oferecendo alternativa de baixa invasividade, custo reduzido, rápida execução e alta sensibilidade. O procedimento consiste na fricção suave de um suabe estéril na mucosa da conjuntiva palpebral inferior, preferencialmente de ambos os olhos para maximizar a detecção, certificando-se de descamar células (onde o parasito reside), e não apenas coletar secreção lacrimal. O procedimento é indolor e dispensa qualquer sedação, garantindo o bem-estar do animal (5). Evidências científicas robustas, como a metanálise de Bento et al. (2023), comprovam que a sensibilidade da PCR em amostras de suabe conjuntival pode ser equivalente ou até superior à do aspirado de medula óssea, registrando taxas de detecção significativamente maiores do que o sangue total. Esse alto desempenho é atribuído ao fato da conjuntiva ocular possuir uma rica rede de capilares e células inflamatórias (incluindo macrófagos) que servem de alvo para a Leishmania, tornando esse sítio um excelente "espelho" da infecção sistêmica, tanto em animais sintomáticos quanto assintomáticos (5).


Resumo comparativo

Para facilitar a rotina na sua clínica, confira o comparativo prático de cada sítio anatômico para o direcionamento da qPCR:


Informações compiladas de Bento et al. (2023); Garay et al. (2022); Lopes et al. (2017), Ramos et al. (2013) e Lombardo et al. (2012).


A escolha inteligente do sítio de coleta, somada à acurácia do NewGene LVCAmp, ou o serviço de diagnóstico molecular da Simbios Biotecnologia, assegura que o seu cão receba o diagnóstico correto, permitindo intervenções terapêuticas precisas e um monitoramento eficaz da carga parasitária.


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