
Detecção precoce e subclínica por PCR nas hemoparasitoses caninas
Há um aumento na ocorrência de doenças transmitidas por carrapatos em cães tanto nas áreas urbanas quanto nas rurais no Brasil, sendo algumas de relevância para a saúde pública. As hemoparasitoses veiculadas por vetores como Rhipicephalus sanguineus e Amblyomma aureolatum estão entre as causas frequentes de morbidade canina. Um dos desafios associados a essas enfermidades é a elevada proporção de infecções subclínicas, nas quais os animais permanecem sem sinais aparentes, mas seguem abrigando e disseminando os agentes infecciosos.
A veterinária de pequenos animais tem avançado em direção à medicina de precisão, com a incorporação de métodos diagnósticos laboratoriais mais sensíveis e específicos. O diagnóstico das doenças transmitidas por vetores não mais depende exclusivamente de encontrar uma mórula em um esfregaço sanguíneo ou da ambiguidade de janelas imunológicas em testes sorológicos, especialmente em fases iniciais ou subclínicas. A PCR tornou-se ferramenta essencial para a identificação do problema por permitir a detecção direta do DNA do patógeno, independentemente da presença de parasitemia elevada ou de resposta imune mensurável.
Historicamente, o diagnóstico enfrentava barreiras importantes. A microscopia possui baixa sensibilidade e especificidade visual. Já a sorologia muitas vezes deixa com a dúvida cruel: estamos vendo uma infecção ativa, uma cicatriz imunológica antiga ou uma reação cruzada? É aqui que o PCR atua como método de referência. Ao detectar diretamente o DNA do patógeno, a análise supera a subjetividade.
No caso da infecção por Ehrlichia canis, o diagnóstico molecular desempenha papel central justamente na identificação de portadores subclínicos. O agente pode permanecer sequestrado em órgãos linfoides, especialmente no baço, mantendo baixas cargas circulantes no sangue periférico. Nessa fase, exames de esfregaço sanguíneo raramente são conclusivos, com os testes sorológicos podendo refletir apenas contato prévio com o patógeno. A PCR detecta o DNA mesmo em baixas cargas, possibilitando o acompanhamento clínico precoce e o monitoramento de alterações laboratoriais, como proteinúria e trombocitopenia, antes da instalação de lesões orgânicas.
De forma semelhante, a PCR é particularmente relevante para o diagnóstico precoce de piroplasmas associados a quadros compatíveis com Babesia canis, incluindo infecções subclínicas. Nessas situações, o esfregaço sanguíneo frequentemente apresenta sensibilidade limitada, não permitindo a visualização direta do parasito, mesmo em animais com alterações hematológicas sutis. Além disso, a diferenciação de Rangelia vitalii, agente do “Nambiuvú” é fundamental, uma vez que apresenta morfologia semelhante às babesias ao exame microscópico, mas possui comportamento clínico distinto. A identificação molecular permite direcionar corretamente o manejo terapêutico e o monitoramento clínico.
Na leishmaniose canina causada por Leishmania infantum, o diagnóstico subclínico assume papel estratégico tanto na prática veterinária quanto na saúde pública. Muitos cães infectados permanecem assintomáticos por longos períodos, enquanto mantêm potencial de transmissão. Testes sorológicos podem apresentar reações cruzadas ou não diferenciar com precisão uma infecção ativa de exposição pregressa. Já a detecção direta do DNA do parasita por PCR em amostras de linfonodo ou medula óssea oferece maior segurança diagnóstica, possibilitando a identificação precoce desses portadores silenciosos.
A incorporação do diagnóstico molecular na rotina clínica representa um avanço significativo na detecção de infecções subclínicas, ampliando a capacidade de intervenção precoce. Para os laboratórios, a oferta de exames por PCR significa entregar resultados com alto grau de confiabilidade. Para os veterinários, é a oportunidade de atuar de forma preventiva e personalizada. Para os tutores, representa a segurança de que a saúde de seus animais está sendo acompanhada com base em evidências biológicas objetivas. Nessas situações, a PCR atua como ferramenta fundamental na transição entre a suspeita clínica e a confirmação etiológica precoce.
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