Epidemiologia molecular de reovírus aviário no Brasil

O reovírus aviário (ARV) tem sido frequentemente detectado em galinhas de granjas comerciais, muitas vezes associado a doenças como a tenossinovite e a síndrome de má absorção. Estas têm causado impactos econômicos significativos na avicultura de corte, seja no campo ou até mesmo nas indústrias de processamento (pela condenação de carcaças) em todo o Brasil. 

O ARV pertence à família Reoviridae e possui genoma de RNA de fita dupla segmentado em 10 fragmentos, classificados conforme o tamanho em: grandes ou large (L1, L2 e L3), médios ou medium (M1, M2 e M3) e pequenos ou small (S1, S2, S3 e S4). O segmento M1 (que codifica a proteína λA) é o mais conservado do genoma e tem sido amplamente utilizado como região-alvo nos ensaios de detecção por RT-PCR. Em contraste, os segmentos S1 (que codifica a proteína antigênica principal σC) e M2 (que codifica a proteína de capsídeo externo μB) estão entre as regiões mais variáveis do genoma. A caracterização (sequenciamento) do gene σC tem sido determinante na identificação das principais linhagens (clusters) de ARV: I, II, III, IV, V e VI.

Análises de rotina e de pesquisa realizadas pela Simbios Biotecnologia têm evidenciado a ocorrência das seis linhagens nas granjas comerciais de galinhas no Brasil nos últimos anos. A organização das linhagens (clusters) na árvore filogenética pode ser observada na figura. A comparação dos dados de ARVs do Brasil com mais de 2 mil sequências de cepas de outros locais (da própria América do Sul, da América do Norte, da Ásia, da Europa, da África e da Oceania) também demonstra uma frequência significativa e equilibrada das linhagens no Brasil, com maior predominância na seguinte ordem: I (26,3%), IV (20,5%), II (19,8%), V (14,6%), VI (11%) e III (7,8%). 

Os resultados demonstram diversidade genética e antigênica de linhagens de ARV que estão disseminadas e associadas a doenças no campo e nos frigoríficos no Brasil. O uso de técnicas de biologia molecular como PCR e sequenciamento têm permitido a identificação das linhagens e a escolha dos programas de imunização, enfatizando o caráter dinâmico do ARV e a necessidade de vigilância molecular contínua nos lotes de produção de aves no Brasil.


O ARV foi descrito pela primeira vez em frangos de corte no Brasil na década de 1970, mas passou anos sem ser considerado um problema sanitário de destaque. as últimas décadas, entretanto, sua relevância clínica e produtiva aumentou, com relatos de surtos mais severos e condenações em abatedouros devido a lesões nos membros inferiores das aves. A pressão seletiva imposta pela vacinação e pela imunidade natural pode favorecer a emergência de variantes geneticamente distintas, reduzindo a eficácia de vacinas convencionais e exigindo atualizações antigênicas e genéticas para programas de imunização mais eficazes. Esta mudança de padrão epidemiológico aponta a dinâmica evolutiva nas variantes virais circulantes, possivelmente influenciada por fatores de pressão seletiva, que incluem imunidade populacional e práticas de controle. São descobertas que ressaltam a importância da vigilância constante e do monitoramento genômico para compreender e responder adequadamente às mudanças na epidemiologia do ARV.

Diante da elevada diversidade genética do ARV e de sua relevância para a avicultura, a vigilância epidemiológica molecular torna-se essencial para monitorar a circulação de linhagens, detectar o surgimento de variantes potencialmente mais virulentas e orientar medidas de controle. O universo dos reovírus aviários, caracterizado por um genoma segmentado e pela possibilidade de rearranjos genéticos, representa um desafio para métodos diagnósticos tradicionais. Essa complexidade é acentuada pelo fato de que variações significativas podem ocorrer em diversos segmentos genômicos, dificultando a classificação e detecção precisa do vírus. Tais mudanças decorrem da dinâmica natural de evolução viral e reforçam a necessidade de uma vigilância epidemiológica molecular robusta para mitigar falhas diagnósticas. Por outro lado, a mudança nos padrões epidemiológicos observados reforça a natureza dinâmica da evolução das variantes virais circulantes, possivelmente influenciada por pressões seletivas, incluindo a imunidade populacional e as práticas de controle adotadas em campo. Em conjunto, esses achados destacam a importância da vigilância contínua e do monitoramento genômico como ferramentas estratégicas para compreender e responder de forma eficaz às mudanças na epidemiologia do ARV.

Em um cenário onde a diversidade genética do vírus  impõe um desafio constante, a vigilância epidemiológica molecular é mais do que essencial: é a chave para a estabilidade produtiva. Com o monitoramento preciso das variantes e a análise filogenética robusta oferecidos pela Simbios, aliada estratégica na contenção da evolução do reovírus aviário, a indústria avícola brasileira obtém os dados críticos para ajustar suas estratégias de imunização e biosseguridade, transformando o conhecimento em proteção efetiva.


Referências

Lunge, V. R., De Carli, S., Fonseca, A. S., & Ikuta, N. (2022). Avian reoviruses in poultry farms from Brazil. Avian Diseases, 66(4), 459-464.


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